a literatura policial brasileira está aqui

recentemente o Raphael Montes, autor do livro “Suicidas”, publicou no blog da editora Companhia das Letras um artigo em que pergunta onde está a literatura policial brasileira ou, mais especificamente, onde estão os autores brasileiros de literatura policial. o resultado já era esperado: dezenas de comentários de leitores escritores dizendo que ei, estou aqui, escrevi o livro tal, publiquei o livro tal. claro. não vê nossos autores policiais quem não quer. porque Raphael Montes é uma exceção. ainda não li o livro “Suicidas”, ao menos não a versão final (li foi algo que creio ter sido uma versão ultra mega alpha, de quando o Raphael tinha uns 17 anos, e o livro ainda tinha muito caminho pra trilhar; dei uma espiada no livro publicado e posso afirmar que esse caminho foi bem trilhado e o resultado final é positivo), mas de qualquer forma não está em jogo a qualidade da literatura do Raphael. claro que ele é bom: foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, tem um livro pra sair pela Companhia das Letras e o editor elogiando na caixa de comentários. mas autor bom existe aos montes. o que nem sempre acontece é autor bom ser publicado, lido, comentado, vendido, enfim: não só na literatura policial brasileira, mas em toda literatura brasileira, são poucos os alcançam esse “ideal de sucesso”. acho que é justo partir desse ponto: Raphael Montes é uma exceção. o que é ótimo, claro. um autor novo de literatura policial finalista do Prêmio São Paulo! a gente precisava de mais gente assim, não é? ora, como exceção que é, de certa forma Raphael está cobrando dos outros que sejam exceção também. ei, estou aqui escrevendo literatura policial, vendendo livros e sendo lido, cadê meus pares? mas não dá pra cobrar isso da gente. ô, moço, assim até dói o coração. não é falta de espaço no mercado editorial. muitos desses autores estão publicados por editoras pequenas. também não cabe mencionar a falta de atenção da mídia, até porque a falta de atenção da mídia é generalizada até mesmo em relação aos autores mais conhecidos (sai perguntando pro povo na rua se conhecem Marçal Aquino ou Raphael Montes, por exemplo). mas vamos ficar aqui no plano da sensatez. a Companhia das Letras, uma das maiores editoras nacionais, publica uns dois ou três novos autores policiais por ano, se tanto. e mesmo quando acolhe alguém como o próprio Raphael, o faz depois que ele já fez sucesso com um primeiro livro publicado por outra editora. claro que surgem autores inéditos na editora também. mas são poucos perto do que é publicado da literatura estrangeira ou dos brasileiros famosos (esses que, se você perguntar na rua, as pessoas realmente vão saber quem são). a editora Record deve publicar mais, porque é uma editora maior e com cinquenta mil selos variados. daí nasceu o Joaquim Nogueira, por exemplo, citado pelo Raphael em seu artigo, que com sessenta e tantos anos publicou seu primeiro livro policial pela Companhia, depois de mandar o original pelo correio sem conhecer ninguém lá dentro (mas ninguém comenta, por exemplo, que a editora não quis publicar seu terceiro livro, que saiu por uma editora menor uns três anos atrás). também há algumas editoras médias que talvez lancem mais autores brasileiros, entre eles autores de policiais, mas a atenção que esses autores recebem vai depender de inúmeros fatores nem sempre calculáveis, incluindo também a qualidade da obra, a posição dos astros no nascimento do livro, a numerologia do nome do autor impresso na capa, condições climáticas da semana de lançamento e a simpatia da assessoria de imprensa. desse meio nasceu o Raphael Montes e o Marçal Aquino, ambos astutamente cooptados pela Companhia das Letras depois de se tornaram sucessos de venda. então enfim temos as milhares de editoras pequenas, publicando autores bons e nem tão bons (como também fazem as maiores, convenhamos); autores de policiais, suspense, fantasia, ficção científica. toda essa literatura de gênero brasileira, negligenciada pelas editoras maiores, está sim bem presente no mercado editorial brasileiro, mas “ninguém” ouve falar nela. estão lá, na caixa de comentários do artigo do Raphael. claro que a gente não pode cobrar da Companhia ou da Record toda essa responsabilidade. que eles publiquem cinco autores policiais por ano já está de bom tamanho dadas as circunstâncias do mercado (deem uma olhada nos autores brasileiros que escrevem policiais citados por Raphael no artigo e vejam por quais editoras eles são publicados). mas óbvio que a nossa literatura policial não pode ser só esses dez escolhidos. assim como a nova literatura brasileira de um modo geral também não poderia se resumir a meia dúzia de autores de editoras maiores. por isso me soou muito estranha a pergunta do Raphael. como assim, onde está a literatura policial brasileira? não é nos jornais e nas editoras maiores que você vai encontrar a resposta, ao menos não para além daqueles que foram mencionados. tem que procurar em outros cantos. coisa ruim tem aos montes, em qualquer gênero, mas tem literatura policial boa também, juro pra vocês. enquanto forem meia dúzia de editoras grandes que aparecem na mídia e, principalmente, têm seus livros nos destaques das livrarias, vamos continuar conhecendo só uma dúzia de autores brasileiros de literatura policial, e o Raphael vai continuar se sentindo solitário em sua jornada. me parece então que a pergunta do artigo foi feita na direção errada (como as respostas nos comentários deixaram bem claro: estamos aqui). não adianta clamar por autores; eles existem aos montes, bons e ruins, geniais e terríveis. mas a maioria nem tem a chance de ser julgada. o mercado livreiro criou um contexto em que ser autor nacional bem sucedido caracteriza, sempre, uma exceção. com a literatura policial (ou qualquer outro gênero) não poderia ser diferente. sim, estamos aqui mas não vendemos, não como você. estamos aqui mas não somos lido, não como você. continuaremos aqui, provavelmente. fico feliz pelas exceções, pelo que elas representam de possibilidade de futuro, de mudança. mas não somos exceção. era pra pedir desculpas?

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